R\CARDO
JORGE
BAT/STA

O silêncio pinta-se em sons, ruídos e movimentos - corpos indefinidos, descaracterizados. O Homem uiva, rompe-se e desfaz-se; devolvendo-o à origem. O Animal vive. Homo Homini Lupus

As pessoas recolhem informação e transformam-na, produzindo ou reproduzindo-a muitas vezes sem saber como ou porquê. Somos caixas negras, onde coisas saem e coisas entram.

Uma peça teatral baseada no conto “Coisas”, do livro Objecto Quase.

No dia em que um Peão tiver vontade própria, talvez os Bispos acelerem nas rectas e as Torres façam diagonais. No dia em que o Peão andar três casas para o lado, talvez o Cavalo passe a fazer jogadas em “Z” e a Rainha seja menos atrevida. No dia em que o Peão mudar o jogo, o Peão vai ser Rei! Nesse dia, talvez as regras possam mudar. Mas no dia a seguir, o tabuleiro será sempre aos quadrados, e as peças sempre pretas e brancas. E Peões...há muitos.

OS SAPATOS nasce do texto homónimo de Yvette Centeno, gentilmente cedido ao CITAC a propósito da comemoração dos 50 anos. Para nós o texto da Yvette Centeno é antes de mais um ponto de partida, um exercício estético do qual arrancámos as suas acções, conteúdos, algumas personagens, várias matérias e objectos. Trabalhámos conteúdos como identidade, conflito social, Tempo, crises existênciais e procura pela libertação. As personagens que sobreviveram ao processo criativo foram trabalhadas numa perspectiva da multiplicação, do desdobramento dos múltiplos que há em nós. “Duas velhas descalças, uma vestida de preto, outra vestida de branco”. Uma bailarina: o momento exacto antes do fim da vida. Um pianista diluído num caminho interrompido. Um empurrão que transforma e revela. A felicidade de sermos um todo: feminino & masculino; vigorosos & delicados. De ter um corpo e duas almas. De ser prazerosa a transformação. Todos somos pedaços deste Universo cujos braços extensos arrastam outros corpos pela corda do Tempo. Um tempo que prende, molesta e transforma. Seres mitológicos e personalidades dentro de sapatos. Sapatos que nos dominam, que nos abrem caminho entre a multidão. Um armário. Solitário. Que suga, devora e cospe. Das palavras da Yvette incorporámos toda a sua existência poética e surreal que nos lançou num desafio a azul.

No crepúsculo da noite, a penumbra mostra a fragilidade do nosso temor. “Alba” faz-nos sucumbir numa inevitável viagem ao desconhecido. A viagem que todos nós enfrentamos em algum momento da nossa vida, a viagem que ainda sonhamos enfrentar.

In the prologue GABRIEL finds himself in a desert and saves a tree with his last strength. He dies, buries himself and passes through an intermediate realm where the Virgin Mary appears to him. She accompanies him to the other side, where he comes across a mirror. In front of the mirror GABRIEL plants the tree, that was once pulled up, back into the earth.

La Féria transformou Cinderela num Musical de maravilhosa espetacularidade que articula todas as Artes do palco: o Teatro, a Música, a Dança, o Circo, e uma fabulosa cenografia apoiada em modernas tecnologias de vídeo. Tudo numa encenação com a fantasia e a alta qualidade artística do Teatro Politeama.



Introductory theatre courses.

Teresa era uma menina bonita e obediente. Das barbatanas nasceram mãos. Da guelra fez-se goela. Teresa era uma menina bonita e obediente. Era. Já não é.

Onde é que eu começo e tu acabas? O que é um limite? O que sou, o que és, o que nos une.

O CITAC apresenta Boîte No Ar, uma rádio novela em parceria com a Rádio Universidade de Coimbra, com a colaboração de Pedro Ribeiro da Silva na composição musical, Pedro Correia na sonoplastia e José Geraldo na dramaturgia.

Corpos são sempre corpos. Perdem-se no espaço, enlaçam-se uns nos outros, imergem na pasta bruta de todos os dias e tentam viver. Sejamos ou não capazes de ver a linha que distingue as formas, onde pousa a luz quando a há, ou as marcas na pele. Se este espaço nasceu do caos, a ordem é apenas um véu ténue sobre a matéria. O calor condensa-se e os corpos expandem. Repara que a luz reflectida nos espelhos não fica nos olhares... Há gritos que têm de se soltar. A não ser quando o prazer emerge. Acorrentados ao sonho, entrámos na banheira. É lá que o púdico se masturba, para se limpar da sujidade dos seus pensamentos. Gajos. Vinho. Pernas de gajas. Não somos esquisitos. Mais vinho, se faz favor!

Se partíssemos do pressuposto que alguém nos tinha colocado dentro de uma caixa, não saberíamos dizer se neste momento estamos mortos ou vivos. Ou mortos e vivos em simultâneo. Pelo menos até alguém abrir a caixa e olhar para nós. No início não era exactamente o Nada, porque provavelmente já existia um Universo antes de haver Universo e vida antes de haver vida. E é muito provável que tenha existido uma civilização antes da civilização e uma guerra antes da guerra. E mais longe ainda, cada vez mais profundo na eternidade, acabo convertido no ponto-consciência, raiz absoluta do existente, onde tudo está em potência e onde a matéria é só amor. Finalmente depois da explosão e implosão de inumeráveis universos, os astros dissolvem-se e a minha mente pára. Eu paro. Começo a recuar, até chegar outra vez a mim.

Ele conhece ELA. Conta-se a viagem de uma relação conturbada desde os primeiros dias de euforia até se tornar tóxica.

Uma adaptação teatral de excertos da “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto.

Coisa: tudo o que existe, ou pode existir real ou abstratamente. Qualquer objeto inanimado, facto, negócio, circunstância, condição, assunto. Este é um tratado que parte da realidade que nos cerca, para tentar organizar as coisas que existem neste mundo, onde tudo tem compartimentos e definições estritas. Há vários tipos de coisas, grandes e pequenas, coisas que estão separadas por anos e espaços, há coisas espectaculares e há coisas violentas, há coisas impossíveis e há coisas do arco-da-velha — Exceptuando os fenómenos do entroncamento ou as aparições da Cova da Iria, que aqui cabem a definição por serem fantásticas ou espantosas, há outros que aqui cabem por serem absurdos e verosímeis: Que o meu gato nunca se queime nos aquecedores, que uma peça de roupa defina um género, que a democracia funcione ao contrário e provoque amnésia, e podíamos continuar por aí fora. Há vários tipos de coisas e neste espetáculo, como no universo, todas se misturam entre si. O resultado é uma coisa que cruza o absurdo com o humor e a poesia.

Pretendemos ser quem somos, saber de onde vimos e ir aonde queremos chegar. Mas... podemos realmente saber quem somos? Julgamos saber de onde vimos, mas serão as histórias factuais? Através destas perguntas nos aventuramos neste projecto, criado sobre esboços dos alicerces da civilização que, através da interação com o público questiona de que forma estes nos abrem ou fecham caminhos.

Questão: O ser individual não existe? O contraditório de ser esquisito, começa no momento em que fazemos questão de o transmitir. Reagimos a um coletivo e rapidamente tentamos encontrar pares que lhe atribuam credibilidade enquanto movimento. E o movimento não para. O contraditório do associativismo é ser tratado, mais cedo ou mais tarde, como pessoa individual e o movimento não pode parar. O contraditório de estar imóvel, é ser o movimento a atribuir-lhe credibilidade. No limite, só conseguimos ser esquisitos individuais, no momento em que morremos e aí, veremos pelo número de pessoas chorosas no dia do funeral, a quantidade de movimento que produzimos em vida. E mais uma vez: o coletivo a ser convencido de que este que morreu é que vai fazer falta. E o movimento não para. Facto: somos todos paisagem.

“Duas linhas paralelas intersectam-se no infinito“. Será o presente a eternidade? Sondo o ar, as marcas, lembro-me do passado, grito com ele, gritamos, somos vários a resistir, apoiamo-nos, as raízes entrelaçam-se e mais um passo se constrói. Quando o chão range, o povo treme, as paredes querem falar, haverá voz para transmitir tantas memórias? A informação dissipa-se... mas agora é recuperada.

Official mascot of EUG2018.

E as histórias se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se repetem e se retêm. Tenho duas vozes no meu cérebro - até tenho mais, mas vamos só falar de duas senão nunca mais - cada uma sussurra para seu lado descontroladamente. E tu? Talvez tenha morrido ontem, mas ninguém percebeu. Sinto o outro pelos olhos da pele, de sorte que, na amálgama humana me torno omnisciente. Puta de ciclo! Loucura frenética, electrificante, fugaz. Num aquário quente de fumo, força pulsante e incessante. Agitação que acalma. Brilho perpétuo com cicatrizes que sararam mas não mataram o meu corpo que fala a linguagem do outro, a minha voz que exprime as palavras do outro, os meus olhos que são o teu espelho e são sempre os mesmos gestos, as mesmas pessoas. E se repetem e se repetem e espeta um lápis no coração e fala só com os olhos e se repetem. Para com isso!

O rio corre restringido por duas margens. Também nós somos reprimidos pelas margens que nos são impostas. Quando as margens comprimem o rio, este revolta-se e transborda, envolvendo tudo o que se encontra ao seu redor. Após mergulhar em direcção ao fundo, na busca da definição de outras margens, encontramos a nossa individualidade, aquela que nos faz assumir o que somos e nos define até ao extremo do isolamento egoísta.

Um ato inicial, tal salto no abismo, sustentado pela incerteza, a imprevisibilidade, a imprescritibilidade e o direito ao erro: qualidades que tão bem definem a liberdade. Puxámos o pano de boca para a saída dos camarins, de lá saímos despojadas de enfeites e com a vontade de iniciar uma relação, de olhar nos olhos, de sentir nas entranhas. “Considerando a tradição primitiva de que o reflexo de uma pessoa no espelho é a sua própria alma: temer o espelho é temer seu eu mais profundo que não se vê.“

A máquina falou. De alguma maneira, que não consegui explicar, A mensagem estava a ser-me comunicada numa linguagem que não entendia por uma entidade desconhecida. Tinha apenas a certeza que não era humana. Um Deus de sílica. Memorizei quanto pude e traduzi quanto soube.

“Quick! Do it before Mr. Query arrives.”

Quando dois corpos habitam o mesmo espaço psíquico adoentado.

Uma superprodução de Filipe La Féria, uma homenagem à Revista à Portuguesa que inclui os melhores números de sempre num espectáculo alegre, feliz e uma crítica mordaz e inteligente a tudo o que se passa no nosso país num divertido tributo aos grandes Actores e Atrizes que, durante gerações, fizeram rir e emocionar o povo português.

Sobre a violência necessária

Baseada em fatos reais, “A Revolta do Milho” é a recriação teatral da revolta camponesa de junho de 1942, decorrida na aldeia de Vale da Pedra, com o envolvimento das populações das três freguesias de Souto da Carpalhosa, Monte Redondo e Bajouca, em Leiria. Com a fome provocada pela guerra, as revoltas camponesas eram frequentes em Portugal, mas abafadas pelo regime de Salazar.

Evocando a memória e a autobiografia do escritor Samuel Delany, cuja obra compreende a imaginação de futuros queer através da lente da ficção científica afrofuturista, Bendik Giske e Romeu Runa criam uma atmosfera meditativa que nos leva ao êxtase pela recorrência dos elementos que “se repetem ao longo de qualquer dia, de qualquer vida, incidentes que constituem ao mesmo tempo o basal e o quotidiano – acordar, pequeno-almoço, almoço, jantar, lavar, eliminar, dormir –, bem como as ascensões e quedas infinitamente repetidas do desejo” (The Motion of Light in Water: Sex and Science Fiction Writing in the East Village, 1988).

“Um pequeno exercício de composição” surge na sequência da recuperação de um elemento cenográfico do espetáculo que juntou Mantero e Silva anteriormente, “O Susto é um Mundo” (2021) de Vera Mantero: uns anéis de ferro, de cerca de 2 metros de diâmetro. Com a colaboração do designer e artista Santiago Tricot, este projeto explora sob a forma de exercício poético as relações entre forma e conteúdo, entre o sólido e o ar, o atravessamento do corpo e da sua imagem na relação com dois anéis pesados de ferro. Vera Mantero e Teresa Silva praticam o corpo, procuram relações, surpreendem-se com o encontro, numa espécie de exercícios de espanto.

“Barbo, salvar Gaia rumo a Yod”, um texto original escrito para o Teatro Estúdio Fontenova, de Armando Nascimento é a nova produção do Teatro Estúdio Fontenova com encenação de José Maria Dias. Esta obra foi motivada pelo conto de ficção científica “Barbo” de Natália Correia publicado em 1968. A extrema pertinência desta narrativa distópica da autora desafiou-nos à criação deste espectáculo “ Barbo, salvar Gaia rumo a Yod”. A emergência climática que vivemos, acompanhada pela crise de recursos vitais que sustentem a população humana, a disfunção das sociedades e a ameaça bélica de destruição à escala planetária, bem como a interrogação acerca de civilizações inteligentes algures no cosmos, são realidades dos nossos dias que descobrem uma peculiar ressonância na fábula original e futurológica de Natália, escolhida para assinalarmos o centenário do nascimento da escritora.

Recebemos esta história pelas mãos de um avô, e assim, lembrámo-nos das histórias dos nossos avós… Conta-nos Álvaro Cunhal nesta história sobre os Magriços como alguns avós trabalhavam muito, no campo e no mar e andavam descalços, como não puderam ir à escola, mas queriam um país melhor. E fala-nos também sobre os Barrigas, aqueles que tinham muitas coisas, que eram donos das terras, das leis e achavam que eram donos das pessoas. A partir do conto “Os Barrigas e os Magriços”, contamos a história de um país que era muito amarelo, tão amarelo que os sorrisos eram mais pequeninos que a palma da mão… Mas continuamos a caminhar até hoje, ou a correr, e embora já não encontremos tantos pés descalços, ainda há sapatos que se acham melhores que outros, e que até podem pisar alguns pés! Nesta maratona, em que também se sobe e desce, vamos cozinhar uma açorda a várias mãos todos debaixo do mesmo céu e acima do mesmo chão.

Noves Fora, Grades Dentro» surge da inquietação e o desejo de realização de uma performance sobre prisões após a leitura de cartas de mulheres presas, publicadas no jornal MAPA, pelo coletivo Vozes de Dentro, estimulando as reflexões do Teatro Estúdio Fontenova sobre enclausuramentos, sejam relacionados com os direitos à terra e ao corpo, sejam com a privação de direitos humanos e democracia. O espetáculo respeitou um processo de pesquisa sobre a natureza das prisões, dos estabelecimentos prisionais e de cercos recentes, como também um debate em torno de locais como Sarajevo, Srbrenica e Beirut para compreender as prisões criadas em conflitos e momentos de guerra. Ligando as pontas do passado ao futuro, a reflexão é um elemento essencial deste espetáculo. Assim, abordaremos aqui três manifestações de prisão: experiências em estabelecimentos prisionais, guerras e conflitos sociais e territoriais, e metáforas que refletem prisões mentais e comportamentais. Que prisões mantemos? Em que prisões vivemos? Como é que se resiste?

Performance-instalação em diálogo de autoras com Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia. Natália, também ela uma mulher de muitas primeiras vezes, edita aquela que é considerada uma das mais abrangentes antologias sobre este tema, e que serve de mote para o trabalho a apresentar na Casa da Cultura. Curiosamente, dos 94 autores apresentados na Antologia, apenas quatro são mulheres. Através desta performance-instalação, quatro mulheres em cena irão (re)descobrir estas autoras, a que se juntam outras vozes, tecendo corpo, desejo e acção.

“Sim, minha senhora. Com certeza, minha senhora. A menina está à espera… O Sr. Doutor está cá hoje. O patrão pediu para irmos trabalhar na folga.” E ao mesmo tempo, vamos servindo. Em diferentes casas, em cada mesa, nas fábricas, no Uber. Curvamo-nos um pouco mais. Puxamos o brilho às pratas, polimos os candelabros, limpamos o pó, servimos a comida. Lavamos os pratos um a um… até um dia, um prato rachar. E quando racha, o que acontece?

Em Durban, na então colónia inglesa de Natal, Paciência, a criada moçambicana do cônsul português Miguel Rosa, está sozinha em casa na lida doméstica quando recebe uma visita inacreditável: a rainha Vitória, na companhia do escocês seu serviçal John Brown. A rainha britânica deseja felicitar o jovem Fernando Pessoa pelo prémio com o nome dela que ele foi nesse dia de 1903 receber à Universidade da Cidade do Cabo, na companhia da mãe e do padrasto. Mas Paciência é uma mulher expedita e sabe que, a essa data, a rainha Vitória já foi reinar para o outro mundo, faz dois anos. Portanto, que mulher é aquela que se quer fazer passar pela defunta soberana inglesa, e por que razão ali veio fazer tal visita? Um jogo de teatro em que a ficção cénica reescreve uma conjuntura histórica, inscrita no passado colonial africano, num conflito de poderes e de identidades étnicas.

Clown Workshop Instructor for the Introductory Theater Course at AEFCRP.

Fábula, metáfora ou extensão da realidade? Em véspera de trazermos a lume o nosso jardim à beira da cidade plantado, continuamos a questionar o lugar onde chegámos. Há flores em canteiros ou será antes um jardim amestrado? Uma mulher de andar firme deambula pela terra saturada. A Aia segue-lhe as pegadas e a rotina viciada até que um dia…

Uma história de amor e coragem, uma lição que nos faz abrir as portas mágicas da fantasia numa mensagem de humanidade e dos eternos valores da vida, da tolerância e do amor ao próximo numa visão contemporânea e progressista que nos fará construir no futuro, onde as nossas crianças irão viver, um mundo melhor, mais solidário e também com mais esperança e alegria. Um espectáculo de Filipe La Féria que apresenta a sua versão do célebre conto num fantástico musical gravado no Teatro Politeama.

Vice-President from January 2014 to July 2015. Treasurer from November 2018 to November 2019.